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O CAÇADOR E A ONÇA ( Parte 10)

  Capítulo 10 – A Herança da Onça A floresta dormia. Mas não em silêncio. Era um sono profundo, de quem confia em quem a vigia. Joaquim caminhava devagar, quase em reverência. O fogo havia sido contido, os invasores tinham partido, mas o queimar mais profundo estava dentro dele. Não era destruição. Era renascimento. Pela primeira vez em dias — ou semanas, ele já não sabia mais contar —, chegou ao ponto mais sagrado da mata. A clareira da árvore antiga, onde tudo havia começado. Onde a onça o tocou sem tocar. A árvore ainda estava lá. E mais viva do que nunca. Símbolos brilhavam em sua casca. Como se soubessem que Joaquim voltaria. Como se o estivessem esperando. Ele se ajoelhou. Tocou o tronco com as duas mãos. Fechou os olhos. E então, ela apareceu. A onça. Não em carne. Em espírito. Emergindo da névoa como fumaça de memória. Seus olhos o encararam com serenidade. Nenhuma palavra foi dita. Mas tudo foi compreendido. Ela caminhou em volta dele uma vez. Depois, duas. ...

O CAÇADOR E A ONÇA (Parte 09)

  Capítulo 9 – Fogo na Sombra A noite caiu como um pano pesado. Mas não trouxe silêncio. Trouxe fumaça. Joaquim sentiu o cheiro antes mesmo de ver as chamas. Era denso, queimado, sujo. Correu entre as árvores, guiado pelo instinto, até encontrar o rastro: uma linha de fogo serpenteando pelas folhas secas, lambendo raízes, espantando os bichos. Mais adiante, viu os homens. Três deles. Roupas militares, armas pesadas. Usavam máscaras contra fumaça e carregavam galões de gasolina. Jogavam fogo onde queriam, como se a floresta fosse lixo. — “Vamos limpar essa praga logo, antes que voltem os fiscais.” — disse um deles, rindo. Joaquim respirou fundo. O sangue fervia. A marca em seu braço brilhou fraca — como se perguntasse: Vai agir? Ou vai assistir? Ele avançou. Primeiro, com astúcia. Cortou uma árvore fina e fez cair em silêncio, barrando o caminho de fuga. Depois, jogou pedras em pontos estratégicos, imitando sons de bichos grandes. Os homens ficaram tensos. Então, rugiu. ...

O CAÇADOR E A ONÇA (Parte 08)

  Capítulo 8 – A Voz da Terra O vento mudou. Não o vento comum — mas aquele que caminha por dentro da pele, que carrega vozes de tempos passados, que arrasta memórias que não são suas. Joaquim sentiu isso logo ao acordar, deitado no chão coberto de folhas, o corpo ainda quente da noite anterior. A floresta estava diferente. Mais viva. Mais consciente. Como se agora o reconhecesse. Cada passo que dava, sentia o chão vibrar debaixo dos pés, como se estivesse pisando em um coração. As árvores o observavam. Os pássaros não fugiam mais. Um pequeno tatu atravessou seu caminho e parou, encarando-o como um mensageiro. Depois, sumiu entre os arbustos. Joaquim ouviu a primeira voz ao meio-dia. Veio do chão. — Proteja o que sangra... Ele se virou, achando que estava ficando louco. Mas então viu. Um bicho preso numa armadilha de ferro. Um jovem veado, com a pata esmagada, gemendo baixinho. Era uma armadilha de caçador — daquelas cruéis, proibidas há anos. Joaquim correu, ajoelhou-se...

O CAÇADOR E A ONÇA (Parte 07)

  Capítulo 7 – O Espelho da Selva A noite caiu sem anúncio. Joaquim andava sem rumo, mas com uma certeza queimando dentro de si: estava perto. A mata já não parecia floresta — era templo. Cada árvore, uma coluna viva. Cada folha, um sussurro de algo antigo demais para ser nomeado. Ele parou ao ouvir um estalo seco atrás de si. Não era galho. Era pisada. Virou devagar. Ela estava lá. A onça. Majestosa. Imensa. O pelo dourado salpicado de preto parecia feito de luz e sombra ao mesmo tempo. Os olhos, aqueles olhos amarelos, não o observavam com fúria, mas com algo entre curiosidade e dor. Eles se encararam por longos segundos. Joaquim não levantou o rifle. Nem pensou nisso. Ela também não avançou. E então, algo impossível aconteceu. A onça deu um passo à frente — e seu corpo começou a mudar. Não como nos filmes, com efeitos ou gritos. Foi suave. Natural. Como se fosse o que sempre esteve por baixo da pele. Diante dele, de pé, estava agora uma mulher . Alta, morena, os ol...

O CAÇADOR E A ONÇA (Parte 06)

  Capítulo 6 – O Labirinto Verde Joaquim entrou na mata antes do sol nascer. Desta vez, não deixou rastros. Nenhuma marca no chão, nenhuma fita amarrada nas árvores. Não levava bússola. Nem precisava. A floresta o guiava. O chamava. A cada passo, a vegetação se fechava mais. A trilha desapareceu. O som dos galhos quebrando sob seus pés foi substituído por um silêncio espesso, quase líquido. A mata respirava ao redor dele — e, de alguma forma, dentro dele. Horas passaram. Ou foram dias? O tempo perdeu significado. O céu quase não era mais visível. Era como se estivesse caminhando por dentro de um organismo vivo, um ventre escuro e úmido que o envolvia completamente. E foi então que começaram as visões. No canto do olho, vultos passavam. Rápidos, leves. Crianças correndo. Mulheres rindo. Animais observando, parados. Mas quando ele virava a cabeça, não havia nada. Só folhas, galhos e um silêncio que apertava o peito. Em um momento, viu seu pai — morto havia anos — sentado sobr...

O CAÇADOR E A ONÇA (Parte 05)

  Capítulo 5 – A Lenda Viva Joaquim voltou à vila no fim da tarde, coberto de suor, lama e silêncio. A marca em seu braço latejava como uma ferida aberta na alma. Ele caminhava como quem carrega algo invisível — e pesado. Quando chegou, os olhares se voltaram. Mas não com o alívio que ele esperava. Não havia festa por seu retorno. Havia medo. Dona Ritinha fechou a janela ao vê-lo. Um menino pequeno escondeu-se atrás das pernas da mãe. Até os cachorros, normalmente barulhentos, se calaram. O velho Benedito estava na varanda da venda, sentado em sua cadeira torta, o inseparável terço entre os dedos. Seus olhos pequenos, quase cegos, se abriram quando sentiu a presença de Joaquim. — Você viu ela... não viu? — perguntou, sem rodeios. Joaquim apenas assentiu. Estava cansado demais pra mentir. O velho fez sinal pra que ele se aproximasse. Quando Joaquim estendeu o braço e mostrou a marca, Benedito fechou os olhos e murmurou uma prece curta. — Essa marca não é dela — disse. — É da...

O CAÇADOR E A ONÇA (Parte 04)

  Capítulo 4 – A Marca no Braço O dia amanheceu cinza, abafado, como se o céu tivesse esquecido de respirar. Joaquim acordou cedo, com o corpo pesado, os músculos tensos, como se tivesse lutado a noite inteira — embora não se lembrasse de ter se mexido. Ao sentar-se, sentiu uma ardência no braço esquerdo. Arregaçou a manga da camisa devagar... e parou. Três linhas vermelhas, finas e perfeitamente paralelas, riscavam seu antebraço. Como garras. Mas não havia sangue, nem ferida aberta. Apenas a marca. Fresca. Dolorida. E impossível de explicar. Ele olhou ao redor. Nenhuma árvore próxima, nenhum espinho. Dormira sozinho, com o facão ao lado. Não havia sinal de invasão no acampamento. Nada fora mexido. Só a marca. E ela falava. Não com palavras, mas com presença. Era como um aviso... ou um vínculo. Joaquim lavou o braço no rio, esfregou com força, mas a marca não saiu. Tampouco parecia piorar. Estava ali. Firme. Como se tivesse sido gravada sob a pele. Ao longo do dia, enquanto...