O CAÇADOR E A ONÇA ( Parte 10)
Capítulo 10 – A Herança da Onça A floresta dormia. Mas não em silêncio. Era um sono profundo, de quem confia em quem a vigia. Joaquim caminhava devagar, quase em reverência. O fogo havia sido contido, os invasores tinham partido, mas o queimar mais profundo estava dentro dele. Não era destruição. Era renascimento. Pela primeira vez em dias — ou semanas, ele já não sabia mais contar —, chegou ao ponto mais sagrado da mata. A clareira da árvore antiga, onde tudo havia começado. Onde a onça o tocou sem tocar. A árvore ainda estava lá. E mais viva do que nunca. Símbolos brilhavam em sua casca. Como se soubessem que Joaquim voltaria. Como se o estivessem esperando. Ele se ajoelhou. Tocou o tronco com as duas mãos. Fechou os olhos. E então, ela apareceu. A onça. Não em carne. Em espírito. Emergindo da névoa como fumaça de memória. Seus olhos o encararam com serenidade. Nenhuma palavra foi dita. Mas tudo foi compreendido. Ela caminhou em volta dele uma vez. Depois, duas. ...