O CAÇADOR E A ONÇA (Parte 09)
Capítulo 9 – Fogo na Sombra
A noite caiu como um pano pesado.
Mas não trouxe silêncio.
Trouxe fumaça.
Joaquim sentiu o cheiro antes mesmo de ver as chamas. Era denso, queimado, sujo. Correu entre as árvores, guiado pelo instinto, até encontrar o rastro: uma linha de fogo serpenteando pelas folhas secas, lambendo raízes, espantando os bichos.
Mais adiante, viu os homens.
Três deles. Roupas militares, armas pesadas. Usavam máscaras contra fumaça e carregavam galões de gasolina. Jogavam fogo onde queriam, como se a floresta fosse lixo.
— “Vamos limpar essa praga logo, antes que voltem os fiscais.” — disse um deles, rindo.
Joaquim respirou fundo. O sangue fervia.
A marca em seu braço brilhou fraca — como se perguntasse: Vai agir? Ou vai assistir?
Ele avançou.
Primeiro, com astúcia. Cortou uma árvore fina e fez cair em silêncio, barrando o caminho de fuga. Depois, jogou pedras em pontos estratégicos, imitando sons de bichos grandes. Os homens ficaram tensos.
Então, rugiu.
Não foi som humano. Foi algo que saiu do fundo do peito, uma fusão entre fera e homem, uma voz que fez a mata estremecer. Os homens dispararam tiros no vazio, gritando palavrões, girando em círculos.
Joaquim surgiu entre a fumaça como um fantasma.
Não com armas.
Com olhos brilhando.
Com a floresta atrás dele.
Em segundos, um dos homens caiu em uma armadilha de cipó que Joaquim aprendera com seu avô. Outro foi empurrado por um bicho que ninguém viu. Só restou o líder — o que falava mais alto.
Eles se encararam.
— “Você é o quê, cara? Um índio maluco?”
Joaquim não respondeu. Apenas deu um passo à frente.
A mata reagiu.
Galhos se fecharam, folhas caíram, a terra tremeu. E o homem fugiu. Deixou tudo para trás — armas, equipamentos, até a dignidade.
O fogo ainda ardia, mas agora sob controle. Joaquim usou folhas úmidas, lama, e um pouco de chuva que caiu sem aviso para apagar o rastro. Quando tudo terminou, caiu de joelhos.
Exausto.
Mas inteiro.
A floresta parecia respirar com ele. Os bichos voltaram aos poucos. Um pequeno grupo de macacos observou dos galhos altos. Uma anta cruzou ao longe, tranquila. A mata reconhecia seu novo guardião.
Mas a paz duraria?
A voz voltou. Agora, vinda do próprio chão.
— A sombra fugiu. Mas volta com outros nomes. Outros rostos. Você está pronto?
Joaquim levantou devagar. A fumaça já não ardia tanto. A marca em seu braço pulsava. E seus olhos… já não eram apenas humanos.
Estavam ficando dourados.
Como os dela.
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