O CAÇADOR E A ONÇA (Parte 08)
Capítulo 8 – A Voz da Terra
O vento mudou.
Não o vento comum — mas aquele que caminha por dentro da pele, que carrega vozes de tempos passados, que arrasta memórias que não são suas. Joaquim sentiu isso logo ao acordar, deitado no chão coberto de folhas, o corpo ainda quente da noite anterior.
A floresta estava diferente.
Mais viva. Mais consciente.
Como se agora o reconhecesse.
Cada passo que dava, sentia o chão vibrar debaixo dos pés, como se estivesse pisando em um coração. As árvores o observavam. Os pássaros não fugiam mais. Um pequeno tatu atravessou seu caminho e parou, encarando-o como um mensageiro. Depois, sumiu entre os arbustos.
Joaquim ouviu a primeira voz ao meio-dia.
Veio do chão.
— Proteja o que sangra...
Ele se virou, achando que estava ficando louco. Mas então viu.
Um bicho preso numa armadilha de ferro. Um jovem veado, com a pata esmagada, gemendo baixinho. Era uma armadilha de caçador — daquelas cruéis, proibidas há anos. Joaquim correu, ajoelhou-se e, com todo o cuidado, forçou o ferro até libertar o animal.
O veado tremia. Os olhos assustados encontraram os dele por um instante... e então, fugiu mancando, mas vivo.
Na árvore ao lado, surgiu um símbolo. Como queimado na casca: um círculo com três marcas dentro. O mesmo que ele vira em sonho.
Mais tarde, ouviu outra voz. Vinha das folhas altas:
— O invasor se aproxima...
Seguiu o som. Encontrou dois homens armados, com roupas camufladas e mochilas pesadas. Estavam medindo árvores, marcando com spray vermelho. Riam alto, falavam em "derrubar tudo em duas semanas".
Joaquim se escondeu. Observou.
Podia atirar. Podia espantar. Mas não era mais caçador comum. A floresta esperava mais dele.
Então, ele fez o que a onça fazia: assustou.
Imitou sons que nenhum homem faz. Mexeu os galhos sem tocar. Fez com que a mata parecesse viva. E, quando os dois ouviram um rugido vindo do nada — um rugido que fez até as folhas caírem —, correram como ratos.
Quando o silêncio voltou, Joaquim sorriu. Um sorriso novo. Feroz. Orgulhoso.
A mata agradeceu. Não com palavras, mas com presença.
As raízes tremeram sob seus pés. Uma energia subiu por sua espinha. A floresta agora falava com ele em tempo real. Era um elo, um canal, uma ponte.
Mas com o dom, veio o aviso.
— Se protege a mata... atrai o que deseja destruí-la.
Naquela noite, no alto de uma árvore, ele viu olhos vermelhos à distância.
Não eram de onça.
Eram de homem.
Homens que caçam guardiões.
E estavam vindo.
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