O CAÇADOR E A ONÇA (Parte 05)

 

Capítulo 5 – A Lenda Viva

Joaquim voltou à vila no fim da tarde, coberto de suor, lama e silêncio. A marca em seu braço latejava como uma ferida aberta na alma. Ele caminhava como quem carrega algo invisível — e pesado.

Quando chegou, os olhares se voltaram. Mas não com o alívio que ele esperava. Não havia festa por seu retorno. Havia medo.

Dona Ritinha fechou a janela ao vê-lo. Um menino pequeno escondeu-se atrás das pernas da mãe. Até os cachorros, normalmente barulhentos, se calaram.

O velho Benedito estava na varanda da venda, sentado em sua cadeira torta, o inseparável terço entre os dedos. Seus olhos pequenos, quase cegos, se abriram quando sentiu a presença de Joaquim.

— Você viu ela... não viu? — perguntou, sem rodeios.

Joaquim apenas assentiu. Estava cansado demais pra mentir.

O velho fez sinal pra que ele se aproximasse. Quando Joaquim estendeu o braço e mostrou a marca, Benedito fechou os olhos e murmurou uma prece curta.

— Essa marca não é dela — disse. — É da mata. Ela te aceitou. Ou... te escolheu.

— Escolheu pra quê? — rosnou Joaquim, entre raiva e confusão.

— Pra carregar o que ela carrega. Ou lutar contra o que ela se tornou.

Joaquim sentou-se ao lado do velho, e ali, enquanto o sol se punha, ouviu o que ninguém mais ousava dizer.

A lenda falava de uma mulher. Linda, forte, de olhos dourados como a aurora. Ela vivia sozinha na mata, filha do mato e da lua. Diziam que falava com os bichos, curava com as mãos, e andava entre cobras e onças como se fossem irmãs.

Um dia, homens vieram com fogo e facão. Queriam abrir estrada. Mataram árvores. Mataram bichos. E mataram ela também.

Mas o espírito da mata não deixou. Deu a ela nova forma. Nova pele. Nova missão.

Desde então, a onça aparecia. Sempre nos tempos de desrespeito. Sempre quando os homens esqueciam que o mato tem dono.

— Ela não é só bicho, Joaquim — disse o velho. — É alma guardiã. Alma ferida. E, às vezes, alma vingativa.

— E o que isso tem a ver comigo? — perguntou ele, com a voz baixa.

O velho demorou, depois falou:

— Tem coisas que só quem tem sangue da mata pode entender. E você... você tem mais da floresta do que imagina.

Joaquim olhou para o céu escurecendo. A mata o chamava de novo. Ele sabia. Tinha voltado só pra ouvir o que já sentia.

A caçada ainda não tinha terminado.

Mas talvez ele não fosse mais o caçador.

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