O CAÇADOR E A ONÇA ( Parte 10)
Capítulo 10 – A Herança da Onça
A floresta dormia. Mas não em silêncio.
Era um sono profundo, de quem confia em quem a vigia.
Joaquim caminhava devagar, quase em reverência. O fogo havia sido contido, os invasores tinham partido, mas o queimar mais profundo estava dentro dele.
Não era destruição. Era renascimento.
Pela primeira vez em dias — ou semanas, ele já não sabia mais contar —, chegou ao ponto mais sagrado da mata. A clareira da árvore antiga, onde tudo havia começado. Onde a onça o tocou sem tocar.
A árvore ainda estava lá.
E mais viva do que nunca.
Símbolos brilhavam em sua casca. Como se soubessem que Joaquim voltaria. Como se o estivessem esperando.
Ele se ajoelhou. Tocou o tronco com as duas mãos. Fechou os olhos.
E então, ela apareceu.
A onça.
Não em carne. Em espírito.
Emergindo da névoa como fumaça de memória. Seus olhos o encararam com serenidade. Nenhuma palavra foi dita. Mas tudo foi compreendido.
Ela caminhou em volta dele uma vez.
Depois, duas.
Na terceira, parou à sua frente. E desapareceu como névoa na luz do sol.
No lugar onde ela estivera, uma pegada de onça… e uma de homem.
Joaquim entendeu.
A lenda agora era ele.
O guardião. O elo. A ponte entre o homem e o mato.
Ele nunca mais voltaria à vila.
Mas também nunca mais estaria só.
As árvores, os ventos, os rios — todos falavam com ele. E onde quer que alguém ameaçasse aquele solo, ele sentiria. Ele viria.
Dizem que, desde então, há quem ouça um rugido na floresta ao entardecer.
Dizem que os caçadores sumiram.
E que os que voltam contam histórias de olhos dourados que brilham no escuro... e protegem o mato como um irmão mais velho protege os mais novos.
Ninguém mais viu Joaquim.
Mas a mata o conhece.
Porque agora, ele é a mata.
E a herança da onça… nunca morre.
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