O CAÇADOR E A ONÇA (Parte 04)
Capítulo 4 – A Marca no Braço
O dia amanheceu cinza, abafado, como se o céu tivesse esquecido de respirar. Joaquim acordou cedo, com o corpo pesado, os músculos tensos, como se tivesse lutado a noite inteira — embora não se lembrasse de ter se mexido.
Ao sentar-se, sentiu uma ardência no braço esquerdo. Arregaçou a manga da camisa devagar... e parou.
Três linhas vermelhas, finas e perfeitamente paralelas, riscavam seu antebraço. Como garras. Mas não havia sangue, nem ferida aberta. Apenas a marca. Fresca. Dolorida. E impossível de explicar.
Ele olhou ao redor. Nenhuma árvore próxima, nenhum espinho. Dormira sozinho, com o facão ao lado. Não havia sinal de invasão no acampamento. Nada fora mexido.
Só a marca.
E ela falava. Não com palavras, mas com presença. Era como um aviso... ou um vínculo.
Joaquim lavou o braço no rio, esfregou com força, mas a marca não saiu. Tampouco parecia piorar. Estava ali. Firme. Como se tivesse sido gravada sob a pele.
Ao longo do dia, enquanto caminhava floresta adentro, sentia algo diferente em si. Os sons da mata estavam mais altos. O farfalhar das folhas, o estalo dos galhos, até a respiração dos animais — tudo parecia próximo demais. Como se ele ouvisse com outros ouvidos.
E mais: ele não precisava mais procurar os rastros da onça.
Sabia para onde ela havia ido.
Não era lógica. Não era instinto. Era algo mais. Como se uma parte dele estivesse ligada à criatura. Como se aquela marca no braço fosse um tipo de... marca de sangue. Uma conexão viva.
Ao chegar a uma clareira, viu pegadas de novo. As mesmas de antes: grandes, firmes, e — ao lado delas — as pegadas humanas.
Mas dessa vez, havia algo mais.
Uma inscrição na terra, feita com a ponta de um galho. Letras malformadas, como de alguém que nunca havia escrito, mas sabia o que queria dizer.
"Volte. Ainda há tempo."
Joaquim leu. Sentiu o estômago revirar. E, pela primeira vez, pensou em recuar.
Mas era tarde demais.
A floresta não apenas o chamava agora.
Ela o havia marcado.
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