O CAÇADOR E A ONÇA (Parte 07)
Capítulo 7 – O Espelho da Selva
A noite caiu sem anúncio.
Joaquim andava sem rumo, mas com uma certeza queimando dentro de si: estava perto. A mata já não parecia floresta — era templo. Cada árvore, uma coluna viva. Cada folha, um sussurro de algo antigo demais para ser nomeado.
Ele parou ao ouvir um estalo seco atrás de si. Não era galho. Era pisada.
Virou devagar.
Ela estava lá.
A onça.
Majestosa. Imensa. O pelo dourado salpicado de preto parecia feito de luz e sombra ao mesmo tempo. Os olhos, aqueles olhos amarelos, não o observavam com fúria, mas com algo entre curiosidade e dor.
Eles se encararam por longos segundos.
Joaquim não levantou o rifle. Nem pensou nisso.
Ela também não avançou.
E então, algo impossível aconteceu.
A onça deu um passo à frente — e seu corpo começou a mudar.
Não como nos filmes, com efeitos ou gritos. Foi suave. Natural. Como se fosse o que sempre esteve por baixo da pele.
Diante dele, de pé, estava agora uma mulher. Alta, morena, os olhos ainda de fera, mas o rosto humano. Seu corpo era coberto por marcas tribais, e seu cabelo longo parecia se misturar à escuridão da mata.
Ela falou. Mas os lábios não se moveram.
— Você me caçou. Mas foi você quem foi chamado.
Joaquim tentou responder, mas não encontrou voz. Ela se aproximou, estendendo a mão — e, naquele instante, ele viu. Viu ela nele.
As marcas em seu braço começaram a brilhar suavemente. Não era tinta. Não era ferida. Era vínculo.
— Você é parte da floresta, Joaquim. Filho do mato. Guardião, como eu fui um dia.
Ele recuou, confuso, com medo do que aquilo significava. Mas não conseguiu negar. A floresta o havia moldado, desde criança. O silêncio, o faro, o respeito. Sempre foi mais do que um caçador.
Foi então que ela disse:
— Você não veio destruir a lenda. Você veio substituí-la.
E desapareceu.
Assim — como névoa ao sol.
No lugar onde ela estivera, apenas pegadas. Felinas. E humanas.
Joaquim caiu de joelhos, o coração disparado. A floresta ao redor parecia respirar em uníssono com ele.
Agora ele sabia: o ciclo não terminava.
Ele era o novo elo.
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