O CAÇADOR E A ONÇA (Parte 2)

 

Capítulo 2 – Presas e Predadores

O sol já começava a descer quando Joaquim retomou a trilha. Aquele rugido ainda ecoava em sua mente, como se estivesse gravado nos ossos. Ele acelerou o passo, atento ao que o esperava pela frente — ou pelo que talvez já estivesse atrás dele.

Enquanto caminhava, a floresta parecia ganhar outra aparência. Era como se, de repente, ela estivesse mais densa, mais viva. Galhos estalavam, mas nada surgia. A trilha agora não era tão clara. As pegadas estavam ali, sim, mas misturadas com outras marcas... diferentes.

Joaquim se abaixou. Uma das marcas no solo chamou sua atenção. Era como uma pegada de onça, mas alongada, distorcida. E ao lado dela — ele congelou.

Cinco dedos. Dedos humanos. Descalços. Cravados na lama úmida.

Um calafrio percorreu sua espinha. Na mesma hora, flashes de memórias surgiram. Seu avô, sentado na cadeira de palha, com o olhar perdido na distância, contava histórias que sempre começavam com "ouvi dizer..." ou "lá pros lados do igarapé, aconteceu que...".

— “Existe uma onça que nunca morre...” — ele dizia. — “Já tentaram bala, veneno, armadilha. Mas ela volta. Sempre volta. Porque não é só bicho, não. É espírito da mata. Aparece quando o homem esquece de respeitar o chão que pisa.”

Na infância, Joaquim ria dessas histórias. Hoje, não estava mais rindo.

Seguiu em frente, com passos mais lentos. O cheiro mudou. Não era mais só o aroma de folhas e terra. Tinha algo metálico no ar. Sangue.

À sua frente, encontrou penas espalhadas, sinais de uma ave despedaçada. Mas não havia pressa no ataque. Era como se a onça tivesse matado por ritual, não por fome. E deixado aquilo ali... de propósito.

Um novo pensamento cruzou sua mente, desconfortável:
E se eu não estiver caçando ela? E se for ela que está me guiando, passo por passo, exatamente pra onde quer?

Naquele momento, Joaquim não sabia mais se era o caçador... ou a presa.

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