O CAÇADOR E A ONÇA (PARTE 1)

 

Capítulo 1 – O Rugido na Floresta

O silêncio da mata só era quebrado pelo estalar das folhas secas sob as botas gastas de Joaquim. O sol mal atravessava a copa fechada das árvores, lançando sombras compridas como dedos tentando agarrá-lo. Ele caminhava com passos firmes, mas o olhar atento deixava claro: não era só mais uma caçada.

A onça havia atacado pela terceira vez em menos de um mês. Primeiro, uma cabra. Depois, um cachorro. Ontem à noite, o filho de dona Ritinha por pouco não virou presa. A vila estava em pânico. Mas para Joaquim, não era medo — era pessoal. Ele caçava desde os doze anos, conhecia cada pegada, cada cheiro. Mas aquela... aquela onça tinha algo diferente.

Agachado junto a uma trilha de pegadas frescas, ele passou a mão sobre o solo úmido. As marcas eram profundas, perfeitas. Muito perfeitas. “É como se ela quisesse que eu a seguisse”, murmurou para si mesmo.

Mais à frente, a trilha fazia uma curva brusca. Não era comum. Felinos eram discretos, sinuosos. Mas aquela onça parecia caminhar em linha reta, como quem sabe exatamente onde quer chegar — ou a quem quer encontrar.

O vento soprou fraco, trazendo um cheiro forte de terra molhada, sangue seco e algo mais... diferente. Joaquim parou. O instinto, que nunca falhava, acendeu um alerta. O mato ao redor estava quieto demais. Sem pássaros. Sem insetos. Só o som abafado da própria respiração.

Foi então que ele ouviu.

Um rugido. Não um som de fúria ou de ameaça, mas de aviso. Profundo. Longo. Parecia vir de todos os cantos ao mesmo tempo, como se a própria floresta estivesse falando.

Joaquim fechou os olhos por um segundo. Respirou fundo. A arma pendia do ombro, mas ele não a tocou. Sabia que o jogo havia começado — e não era ele quem estava no controle.

A onça não estava fugindo.

Estava esperando.

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